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A investigação sobre o Banco Master ganhou novos desdobramentos após a prisão do banqueiro Daniel Vorcaro nesta quarta-feira (4), durante a terceira fase da Operação Compliance Zero. A Polícia Federal aponta que o empresário liderava uma organização criminosa ligada a fraudes financeiras, acesso ilegal a informações sigilosas e intimidação de críticos.
O Banco Master passou a ser investigado após suspeitas de emissão de títulos de crédito sem lastro, prática que teria causado prejuízos bilionários ao mercado financeiro. Parte desses danos foi coberta pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mecanismo que protege investidores em caso de quebra de instituições financeiras. A seguir, veja os principais fatos do caso:
Nova fase da operação e segunda prisão de Vorcaro
Na quarta-feira (4), a Polícia Federal prendeu novamente o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, em São Paulo. A ordem de prisão foi expedida pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). O pedido da PF apontou que a prisão preventiva seria necessária para preservar a ordem pública e econômica, impedir a destruição de provas, evitar pressão sobre testemunhas e garantir o andamento do processo. A decisão também considerou indícios de continuidade das práticas criminosas após a soltura anterior de Vorcaro.
Após a prisão, Vorcaro e o cunhado Fabiano Zettel foram levados à Superintendência da Polícia Federal em São Paulo e, ainda no mesmo dia, passaram por audiência de custódia na Justiça Federal.
Ao final da audiência, realizada na tarde de quarta-feira, a Justiça decidiu manter a prisão preventiva dos dois investigados. Eles foram encaminhados ao Centro de Detenção Provisória (CDP) 2 de Guarulhos, na Região Metropolitana de São Paulo e na manhã desta quinta-feira (5), foram transferidos para a Penitenciária 2 de Potim, no interior de São Paulo.
Suspeitas de ocultação de patrimônio
Entre os elementos citados na investigação está a suspeita de que o empresário teria ocultado recursos financeiros. Em janeiro de 2026, autoridades bloquearam mais de R$ 2,2 bilhões em uma conta ligada ao pai do banqueiro. A defesa afirma desconhecer a existência da conta e dos valores mencionados.
Investigadores também mencionam que Vorcaro possui aeronaves privadas e ativos financeiros no exterior, inclusive em paraísos fiscais. Segundo a Polícia Federal, há indícios de movimentações que poderiam indicar tentativa de dilapidar patrimônio para evitar o alcance da Justiça.
Outros investigados presos na operação
Além de Vorcaro, o ministro André Mendonça determinou a prisão de Fabiano Campos Zettel, cunhado do banqueiro, que foi identificado como responsável por intermediar pagamentos e organizar contratos usados para movimentar recursos do grupo. Ele se apresentou voluntariamente à Polícia Federal após a decisão judicial.
Também foram presos Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”, apontado como responsável por coordenar as atividades operacionais do grupo, e Marilson Roseno da Silva, policial federal aposentado que teria colaborado com o monitoramento de pessoas e obtenção de informações.
Tentativa de suicídio de "Sicário"
Ainda na quarta-feira (4), "Sicário" foi encontrado desacordado na cela onde estava detido na Superintendência da Polícia Federal em Minas Gerais. Segundo a corporação, ele teria tentado tirar a própria vida.
Policiais iniciaram procedimentos de reanimação e acionaram o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), que o levou ao Hospital João XXIII, em Belo Horizonte. No início da noite, a Secretaria de Saúde de Minas Gerais informou que ele seguia internado em estado grave, enquanto o hospital iniciava protocolo para confirmação de morte cerebral. A Polícia Federal informou que abrirá investigação interna para apurar o caso.
Estrutura paralela chamada “A Turma”
De acordo com a Polícia Federal, o grupo investigado mantinha uma estrutura interna de vigilância conhecida como “A Turma”. Segundo a PF, o grupo coletava informações sobre pessoas consideradas ameaças ao Banco Master e realizava ações de intimidação.
As investigações indicam que integrantes do grupo teriam obtido informações sigilosas por meio do acesso indevido a sistemas restritos de órgãos públicos. Entre as bases acessadas estariam sistemas da Polícia Federal, do Ministério Público Federal e de instituições internacionais, como FBI e Interpol. Esses dados teriam sido usados para monitorar autoridades, jornalistas e pessoas ligadas às investigações.
Monitoramento e ameaças a opositores
Mensagens encontradas no celular de Vorcaro indicam que o grupo realizava acompanhamento de jornalistas, opositores e ex-funcionários.
Em um dos diálogos analisados, o banqueiro demonstra insatisfação com reportagens publicadas pelo jornalista Lauro Jardim, do jornal O Globo, e menciona a possibilidade de uma agressão que simulasse um assalto. Outras conversas indicam ordens para intimidar funcionários e levantar dados pessoais de pessoas consideradas problemáticas.
Segundo os investigadores, o grupo mantinha uma estrutura organizada para financiar suas atividades. Mensagens analisadas pela Polícia Federal indicam que Mourão recebia cerca de R$ 1 milhão por mês para coordenar as ações da equipe e distribuir valores entre integrantes responsáveis por monitoramento e coleta de informações.
Suspeitas de cooptação dentro do Banco Central
Segundo a Polícia Federal, funcionários do Banco Central teriam fornecido orientações e informações antecipadas sobre procedimentos de supervisão da autarquia. Ambos foram afastados das funções e passaram a responder a medidas cautelares.
Durante as operações, a Polícia Federal apreendeu 111 celulares, cinco deles pertencentes a Vorcaro. Apenas parte do material foi analisada até agora.
Divergência entre PF e PGR sobre urgência da prisão
Ao autorizar as prisões, o ministro André Mendonça também criticou a avaliação inicial da Procuradoria-Geral da República (PGR), que havia considerado não haver urgência suficiente para a medida. Na decisão, o relator afirmou que os elementos apresentados pela Polícia Federal indicam risco imediato e continuidade de crimes graves.
Por: Izabela Prazeres / Metro 1