
Diante da comoção em todo o país após se tornar pública a violência brutal cometida por adolescentes contra o cão Orelha, em Santa Catarina, que causou a morte do animal, parlamentares passaram a reivindicar a urgência para votação de projetos que endurecem as penas para crimes de maus-tratos a animais. Há também quem defenda a retomada da discussão sobre a diminuição da maioridade penal.
Orelha tinha 10 anos de idade e era um cão comunitário que vivia na região da Praia Brava, na cidade de Florianópolis. Neste mês, o cão Orelha foi encontrado gravemente ferido, agonizando, e acabou submetido à eutanásia durante atendimento veterinário que tentava reverter o quadro clínico causado pelas agressões.
As investigações da Polícia Civil catarinense começaram no dia 16 de janeiro. As investigações apontam ao menos quatro adolescentes suspeitos de agredir o animal de forma violenta, com a intenção de causar sua morte, e as agressões se concentraram na cabeça do animal.
As autoridades também apuram se o mesmo grupo de adolescentes tentou afogar outro cão comunitário, na mesma praia, no início de janeiro. Nesse caso, o cachorro teria conseguido fugir.
Uma das iniciativas que devem prosperar nos próximos dias, a partir do início dos trabalhos de 2026 no Congresso Nacional, é a votação de projetos que visam endurecer as penas para crimes de maus-tratos a animais. O senador Humberto Costa (PT-PE) disse nesta quinta-feira (29), em suas redes sociais, que vai pedir urgência para votação de um projeto de sua autoria que trata do tema.
O projeto do senador do PT, o PL 4.363/2025, amplia as punições previstas na Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/1998), aumentando o tempo de prisão e agravando a pena nos casos em que a violência resulta na morte do animal. Humberto Costa disse que a brutalidade cometida contra o cão Orelha expôs de forma dramática as falhas da legislação atual e a necessidade de uma resposta mais firme do Estado.
“Vou pedir urgência à votação do PL 4.363, que apresentei para aumentarmos as penas contra aqueles que impingem maus-tratos a animais, especialmente cães e gatos. A barbaridade cometida contra o cão Orelha chocou o país. Uma legislação mais forte e com penas mais duras certamente vai ajudar o Brasil nessa importante pauta”, afirmou o senador.
Atualmente, a Lei de Crimes Ambientais prevê pena de detenção de três meses a um ano e multa para maus-tratos contra animais em geral — sanção considerada branda por especialistas e parlamentares. Desde 2020, crimes cometidos contra cães e gatos passaram a ser punidos com reclusão de dois a cinco anos, multa e proibição da guarda, retirando esses casos da categoria de menor potencial ofensivo.
Pela proposta do senador Humberto Costa, a pena para maus-tratos contra cães e gatos subiria para três a seis anos de reclusão, além de multa e proibição da guarda. Nos casos em que a violência resulta na morte do animal, o aumento de pena passaria do intervalo atual — de um sexto a um terço — para dois terços.
Outro senador que se manifestou favorável a uma revisão dessas penas sobre maus-tratos a animais foi Fabiano Contarato (PT-ES). O senador foi o relator da lei que endureceu as penas para maus-tratos contra cães e gatos em 2020.
Contarato classificou o episódio ocorrido com o cão Orelha como “revoltante”, além de cobrar responsabilização proporcional à gravidade das condutas.
“Confesso que custei acreditar. Adolescentes jovens de famílias estruturadas agredindo um cão por pura maldade. Um animal dócil que não oferecia risco algum, cuidado e amado por toda a comunidade. Orelha não era apenas um cachorro. Ele fazia parte daquele lugar. A lei será cumprida. Infelizmente, ainda muito branda”, disse o senador.
Na Câmara, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) defendeu a retomada da discussão sobre a redução da maioridade penal no Brasil. Em um vídeo divulgado nas suas redes sociais em que pede “justiça por Orelha”, Nikolas afirma que se os adolescentes fizeram um ato de tamanha brutalidade contra um cachorro, provavelmente farão o mesmo contra outros seres humanos.
“Se você der uma olhadinha histórica, a esquerda sempre ficou ao lado do menor de idade, mesmo quando ele era um criminoso. Isso aqui não é uma polarização somente entre direita e esquerda. É quem quer que um criminoso, seja ele de 16 anos, 17 ou 18, ele pague pelo seu crime, e ele não fique impune. Ou seja, você precisa escolher, realmente, de que lado você deseja ficar”, afirmou Nikolas ao defender a redução da maioridade penal.
Por Edu Mota, de Brasília /BN