A Petrobras levou
desenvolvimento, renda e impostos através de sua produção de petróleo ao longo
dos últimos 60 anos, desde que os primeiros poços terrestres foram descobertos
no início da década de 1960, em Buraçica, região de Alagoinhas, mas sua saída foi
desastrosa para a natureza e para cofres das cidades.
O passivo ambiental
deixado pela empresa inclui grandes áreas degradadas, rios e nascentes poluídos
ou mortos, bacias para depósito de óleo cru abandonadas e muitas áreas onde
deverão ser feitos trabalhos de recuperação do solo, recomposição da vegetação
nativa e replantio de árvores às margens de rios, lagos e lagoas próximas às
áreas de produção.
Os moradores do entorno
das áreas degradadas sofrem com o mau cheiro que exala dos locais, muitos deles
maiores do que um campo de futebol, os chamados diques, pequenos ou grandes
reservatórios utilizados para armazenamento de óleo cru, tratamento e emissão
dos resíduos tratados na rede de esgoto, normalmente riachos, lagoas ou rios.
Um estudo preliminar feito
pela empresa Renovare Soluções Ambientais aponta que essas áreas degradadas vão
levar cerca de dez anos para retomarem seu ambiente natural, pois grande parte
das vegetações foi devastada, além da destruição de nascentes e riachos, muitos
deles sem a mínima condições de retorno.
“Estamos falando de
tratar essa área para as próximas gerações, para os moradores que aqui estão e
para mostrar que a empresa que veio produzi tem que ter o compromisso ambiental
e devolver o passivo recuperado, não destruído como estamos vendo aqui”, disse
Vanderley Soares, diretor da Renovare.
Ele fala que é possível
recuperar essas áreas degradadas. Muitos desses postos, segundo ele, já
passaram pelo processo de lacração via concreto, mas o entorno ainda está
destruído. A lacração em concreto fecha em definitivo o poço, mas seu passivo
se espalha pela área, deixando um rastro de abandono e desprezo pela natureza.
Uma das áreas mais
degradas entre as 16 cidades pesquisadas é a região de Buraçica, entre
Alagoinhas e Catu, mas outras áreas como Santiago, em Catu, e Bálsamo, em
Cardeal da Silva, também estão em estado degradante, necessitando passar por
recomposição ambiental.
A Renovare está
pesquisando junto à Petrobras a existência de uma conta bancária para cada poço
perfurado. Essa conta serve ou serviria para a recuperação da área degrada no
local e entorno, devolvendo à natureza a sua flora.
Vanderley Soares disse
que a flora é possível recuperar grande parte dela, mesmo com o efeito
agressivo dos produtos e do tempo em que esses materiais, muitos deles
altamente tóxicos, foram armazenados no local, mas a fauna é impossível de se
recuperar.
Ele avalia que a região
era rica em animais silvestres, preguiças, onças, tamanduás, tatus e cobras,
que foram deixando os seus habitats à medida em que as máquinas e sondas
perfuratrizes avançavam sobre os terrenos. Muitos desses animais foram parar
nas cidades. Já foram feitos registros na imprensa de Alagoinhas da presença de
preguiças na área urbana. Uma delas foi vista no interior do 4º BPM, que tratou
de acionar os órgãos de defesa do meio ambiente para retornar o animal ao seu
habitat.
O maior volume de animais
que abandonaram essas áreas de produção de petróleo são as cobras, lagartos e
morcegos, animais que são nocivos ao homem e que foram vistos em quintais de
muitas residências nas cidades produtoras.
Outro município bastante
afetado pelo passivo ambiental deixado pela Petrobras é Entre Rios, a 140 km de
Salvador. A Câmara Municipal da cidade realiza amanhã (30) uma audiência
pública para debater o assunto.
Presença
da Petrobrás foi importante, mas impactou o meio ambiente
A Presença da Petrobrás
na exploração de petróleo e gás ao longo dos últimos 60 anos trouxe mudanças
significativas na renda e na geração de empregos nos municípios. Antes, esses
municípios tinham como principais fontes de renda a agricultura e o comércio
local, mas sem grandes perspectivas quanto ao desenvolvimento sócio-econômico.
Com a chegada da
Petrobrás houve uma mudança impactante na renda dos trabalhadores, mudando o
perfil econômico de muitas dessas cidades. A contratação de trabalhadores sem
mão de obra especializada foi outro fator importante. Com a explosão da
descoberta de centenas de poços, havia a necessidade de contratação de
trabalhadores com muita urgência. Contam alguns petroleiros aposentados que
essa contratação era feita nas ruas, nas praças. Os ônibus saíam lotados e
chegavam às áreas de produção. Quase ninguém sabia operar uma sonda, perfurar
poços ou ligar uma máquina. “A escola era ali, entre novatos, empregados e
engenheiros, que tinham a função de ensinar o básico e colocar a engrenagem
para funcionar diuturnamente”, disse Antonio Carlos Nunes, que dedicou 30 anos
na área de produção.
“Cheguei ao campo de
produção como a maioria. Não sabia de nada e nem quanto ia ganhar. Pediram
minha carteira profissional, meus antecedentes, endereço, telefone, fiz alguns
exames e uma semana depois já estava em campo”, disse ele.
“Não foi fácil, pois
quase ninguém entendia nada de petróleo. Era uma coisa nova pra todo mundo e
todos tiveram que aprender em campo, na lida, diariamente”, completou.
Ausência
da Petrobrás deixa lacuna de serviços e empregos
A ausência da Petrobrás
nas 16 cidades –com exceção de São Sebastião do Passé, onde mantém o campo de Taquipe-,
deixa uma lacuna muito grande na região.
Embora tenha causado um
grande passivo ambiental, a presença da empresa nas cidades gerava muitos
dividendos para as cidades e seus trabalhadores. Eram, na grande maioria, os
salários mais abastados. Ser petroleiro nas décadas de 60, 70 e 80 era sinônimo
de riqueza. Todo petroleiro tinha portas abertas nos bancos para créditos
imobiliários, troca de carros e viagens. A economia desses municípios foi
aquecida e teve uma mudança muito grande no perfil econômico de cada uma delas.
As primeiras cidades a
sentir a ausência da Petrobrás foi Alagoinhas. Ela possuía um grande terreno no
centro da cidade e o projeto era fazer do município a sede regional da empresa.
Esse projeto foi abortado na década de 1980 e o terreno doado à prefeitura.
Outras cidades como Catu,
Entre Rios e Pojuca possuíam sedes em prédios enormes. Nas décadas de 1980 e
1990 esses prédios foram doados às prefeituras e transformados em secretarias
municipais.
Outra perda significativa
foi no lado social. A Petrobrás mantinha programa de doação de cestas básicas,
promovia eventos e festas nas comunidades rurais onde estava instalada.
Prefeituras
perdem com ausência da Petrobrás na melhoria das estradas vicinais
A ausência da Petrobrás é
sentida em todos os campos. Nos cofres dos municípios das cidades produtoras de
petróleo em especial. A Petrobrás promovia melhorias nas estradas vicinais e
até em algumas BAs que davam acesso às suas bases de produção.
Essa melhoria incluía a
colocação de asfalto, sinalização e iluminação. Esses serviços deixaram de ser
prestados pela empresa quando ela começou a vender seus campos maduros, hoje
nas mãos de empresas privadas.
As empresas privadas,
mesmo fazendo o mesmo percurso e utilizando as mesmas estradas, não fazem
melhorias nas estradas, pois consideram ser de responsabilidade de cada
município e do estado esse serviço.
Fonte :Vanderley Soares