segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Mensalidade escolar mais que dobrou em sete anos e deve ter novo aumento

Mensalidade escolar mais que dobrou em sete anos e deve ter novo aumento
Foto: Sumaia Viela / AgĂȘncia Brasil
Enquanto a renda do brasileiro ficou praticamente estagnada, as mensalidades escolares mais que dobraram nos Ășltimos sete anos - e vĂŁo subir ainda mais em 2020. Um boleto do ensino fundamental que, ao final de 2011, era de R$ 1.000, atualmente Ă© de R$ 2.080, se ajustado pela inflação acumulada para essa etapa da escolaridade, calculada pelo IBGE.

Se o aumento tivesse seguido o Ă­ndice inflacionĂĄrio geral, medido pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), o valor seria consideravelmente menor: R$ 1.538. NĂŁo que os colĂ©gios privados nĂŁo tenham sentido a crise econĂŽmica. Os Ă­ndices de aumento vĂȘm caindo desde 2016 em quase todas as etapas, com exceção da creche. Mas seguem acima da inflação registrada no paĂ­s --o Ășnico ano em que isso nĂŁo ocorreu foi 2015.

A alta contínua dos custos tem levado famílias a trocar as escolas de seus filhos por outras mais baratas. Foi a decisão que tomou Caroline Michalaros após saber que o colégio onde sua filha mais nova estuda hoje, o Maria Imaculada (zona sul de São Paulo), elevarå a mensalidade em 6,5% em 2020. Seu orçamento jå estava apertado hå dois anos e meio, quando ela perdeu o emprego. Ao saber do novo aumento, ela e o marido decidiram que não dava mais.

Caroline conta que até chegou a receber no passado um desconto de 10% após explicar a situação à escola. Mas, junto com a dedução, veio uma taxa para o ensino bilíngue que passou a ser oferecido, e ficou tudo na mesma. Para ela, faltou à instituição de ensino maior abertura ao diålogo. "Temos uma relação longa com a escola. Nossa filha mais velha estudou lå e, sempre que pudemos adiantar a anuidade, nós o fizemos. Nada disso foi levado em conta."

Com duas filhas no Colégio Nossa Senhora de Sion, em Higienópolis (região central), a empresåria Sandra Duarte diz que o colégio tem disponibilidade para o diålogo e costuma dar bons descontos para irmãos. Mas, para manter as duas filhas com as sucessivas elevaçÔes da anuidade (a previsão para 2020 é de 8,5%), foi preciso cortar alguns cursos extras que elas faziam.

Como o Imaculada e o Sion, outras escolas tradicionais de São Paulo já avisaram aos pais que vão reajustar a mensalidade em 2020 a índices que superam a estimativa de inflação para este ano, em torno 3,3%. É o caso, por exemplo, do Bandeirantes (6,5%), no Paraíso (zona sul de SP); do Vera Cruz (5,9%), em Alto de Pinheiros (zona oeste); e do Santi (7%), no Paraíso.

Segundo o presidente do Sieeesp (sindicato das escolas particulares de SĂŁo Paulo), Benjamin Ribeiro da Silva, a maioria dos reajustes do setor no estado deve ficar entre 3% e 6%. "A concorrĂȘncia hoje jĂĄ Ă© muito grande, nĂŁo tem espaço pra dar aumento muito grande." O percentual, afirma, varia de acordo com aspectos como o aluguel e o investimento em tecnologia.

Esse segundo ponto foi um dos que pesaram para o Sion, segundo a escola, uma vez que serão disponibilizados tablets aos alunos como parte do material. Além disso, afirma o colégio, também foi necessårio aumentar a carga horåria para adequar o currículo do ensino médio à Base Nacional Comum Curricular e oferecer reajustes de salårios, que também contribui para elevar o gasto com pessoal.

A remuneração dos professores Ă©, de fato, o que mais pesa no aumento das mensalidades, segundo o diretor-presidente do Bandeirantes, Mauro de Salles Aguiar. Isso porque, ao menos desde 2013, os educadores tĂȘm obtido aumentos reais de salĂĄrio na maior parte dos anos. Em escolas de ponta, esse fator pesa ainda mais, diz. "HĂĄ ĂĄreas do conhecimento em que hĂĄ disputa por professores, como fĂ­sica e matemĂĄtica. A gente nĂŁo pode arriscar perder profissionais", afirma.

Neste ano o Sinpro, sindicato dos professores da rede particular na capital, e o Sieeesp nĂŁo chegaram a um acordo, e o Ă­ndice de reajuste ainda serĂĄ definido pela Justiça. Para 2020, Salles afirma que a expectativa Ă© de que ele fique em 5,9%, por isso esse fator jĂĄ foi embutido no cĂĄlculo das mensalidades do ano que vem. "É preciso muito cuidado, porque um erro em uma projeção dessas pode atĂ© fechar uma escola", diz.

Advogado do Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor), Igor Marchetti explica que as escolas tĂȘm obrigação de informar os parĂąmetros de reajuste, com planilha colocada em local visĂ­vel para que sejam identificados os fatores que pesaram no cĂĄlculo. Quando nĂŁo hĂĄ acordo, o melhor a fazer Ă© se articular com outros pais, afirma ele. "A gente sempre recomenda que a reclamação seja feita de forma coletiva, para ter mais força e, eventualmente, as famĂ­lias podem entrar com uma ação coletiva."

por Angela Pinho | Folhapress