
Foto: Sumaia Viela / AgĂȘncia Brasil
Enquanto a renda do brasileiro ficou praticamente estagnada, as mensalidades escolares mais que dobraram nos Ășltimos sete anos - e vĂŁo subir ainda mais em 2020. Um boleto do ensino fundamental que, ao final de 2011, era de R$ 1.000, atualmente Ă© de R$ 2.080, se ajustado pela inflação acumulada para essa etapa da escolaridade, calculada pelo IBGE.
Se o aumento tivesse seguido o Ăndice inflacionĂĄrio geral, medido pelo IPCA (Ăndice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), o valor seria consideravelmente menor: R$ 1.538. NĂŁo que os colĂ©gios privados nĂŁo tenham sentido a crise econĂŽmica. Os Ăndices de aumento vĂȘm caindo desde 2016 em quase todas as etapas, com exceção da creche. Mas seguem acima da inflação registrada no paĂs --o Ășnico ano em que isso nĂŁo ocorreu foi 2015.
A alta contĂnua dos custos tem levado famĂlias a trocar as escolas de seus filhos por outras mais baratas. Foi a decisĂŁo que tomou Caroline Michalaros apĂłs saber que o colĂ©gio onde sua filha mais nova estuda hoje, o Maria Imaculada (zona sul de SĂŁo Paulo), elevarĂĄ a mensalidade em 6,5% em 2020. Seu orçamento jĂĄ estava apertado hĂĄ dois anos e meio, quando ela perdeu o emprego. Ao saber do novo aumento, ela e o marido decidiram que nĂŁo dava mais.
Caroline conta que atĂ© chegou a receber no passado um desconto de 10% apĂłs explicar a situação Ă escola. Mas, junto com a dedução, veio uma taxa para o ensino bilĂngue que passou a ser oferecido, e ficou tudo na mesma. Para ela, faltou Ă instituição de ensino maior abertura ao diĂĄlogo. "Temos uma relação longa com a escola. Nossa filha mais velha estudou lĂĄ e, sempre que pudemos adiantar a anuidade, nĂłs o fizemos. Nada disso foi levado em conta."
Com duas filhas no Colégio Nossa Senhora de Sion, em Higienópolis (região central), a empresåria Sandra Duarte diz que o colégio tem disponibilidade para o diålogo e costuma dar bons descontos para irmãos. Mas, para manter as duas filhas com as sucessivas elevaçÔes da anuidade (a previsão para 2020 é de 8,5%), foi preciso cortar alguns cursos extras que elas faziam.
Como o Imaculada e o Sion, outras escolas tradicionais de SĂŁo Paulo jĂĄ avisaram aos pais que vĂŁo reajustar a mensalidade em 2020 a Ăndices que superam a estimativa de inflação para este ano, em torno 3,3%. Ă o caso, por exemplo, do Bandeirantes (6,5%), no ParaĂso (zona sul de SP); do Vera Cruz (5,9%), em Alto de Pinheiros (zona oeste); e do Santi (7%), no ParaĂso.
Segundo o presidente do Sieeesp (sindicato das escolas particulares de SĂŁo Paulo), Benjamin Ribeiro da Silva, a maioria dos reajustes do setor no estado deve ficar entre 3% e 6%. "A concorrĂȘncia hoje jĂĄ Ă© muito grande, nĂŁo tem espaço pra dar aumento muito grande." O percentual, afirma, varia de acordo com aspectos como o aluguel e o investimento em tecnologia.
Esse segundo ponto foi um dos que pesaram para o Sion, segundo a escola, uma vez que serĂŁo disponibilizados tablets aos alunos como parte do material. AlĂ©m disso, afirma o colĂ©gio, tambĂ©m foi necessĂĄrio aumentar a carga horĂĄria para adequar o currĂculo do ensino mĂ©dio Ă Base Nacional Comum Curricular e oferecer reajustes de salĂĄrios, que tambĂ©m contribui para elevar o gasto com pessoal.
A remuneração dos professores Ă©, de fato, o que mais pesa no aumento das mensalidades, segundo o diretor-presidente do Bandeirantes, Mauro de Salles Aguiar. Isso porque, ao menos desde 2013, os educadores tĂȘm obtido aumentos reais de salĂĄrio na maior parte dos anos. Em escolas de ponta, esse fator pesa ainda mais, diz. "HĂĄ ĂĄreas do conhecimento em que hĂĄ disputa por professores, como fĂsica e matemĂĄtica. A gente nĂŁo pode arriscar perder profissionais", afirma.
Neste ano o Sinpro, sindicato dos professores da rede particular na capital, e o Sieeesp nĂŁo chegaram a um acordo, e o Ăndice de reajuste ainda serĂĄ definido pela Justiça. Para 2020, Salles afirma que a expectativa Ă© de que ele fique em 5,9%, por isso esse fator jĂĄ foi embutido no cĂĄlculo das mensalidades do ano que vem. "Ă preciso muito cuidado, porque um erro em uma projeção dessas pode atĂ© fechar uma escola", diz.
Advogado do Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor), Igor Marchetti explica que as escolas tĂȘm obrigação de informar os parĂąmetros de reajuste, com planilha colocada em local visĂvel para que sejam identificados os fatores que pesaram no cĂĄlculo. Quando nĂŁo hĂĄ acordo, o melhor a fazer Ă© se articular com outros pais, afirma ele. "A gente sempre recomenda que a reclamação seja feita de forma coletiva, para ter mais força e, eventualmente, as famĂlias podem entrar com uma ação coletiva."
por Angela Pinho | Folhapress