quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Após alta no desmate, Salles diz que Brasil tem legitimidade para obter ajuda de países ricos

Após alta no desmate, Salles diz que Brasil tem legitimidade para obter ajuda de países ricos
Foto: Reprodução / Agência Brasil
Dez dias depois de anunciar que o Brasil bateu o recorde de desmatamento desta década, o ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente) disse que o Brasil é o país em desenvolvimento que mais faz pelo ambiente e, portanto, tem a maior legitimidade para pleitear boa parte dos US$ 100 bilhões ao ano que os países ricos oferecem para preservação.

Salles participou nesta quarta-feira (27) de audiência pública na Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural na Câmara dos Deputados. Na saída, afirmou que cobrará a promessa de ajuda financeira dos países ricos durante a COP-25 (Conferência Internacional sobre Mudança Climática), que será realizada entre 2 e 13 de dezembro em Madri, na Espanha.

O dinheiro será destinado a países em desenvolvimento para aplicação em projetos de adaptação e combate às mudanças climáticas.

"O Brasil, que é, dos países em desenvolvimento, aquele que mais faz pelo meio ambiente, que tem a maior floresta tropical, que tem o Código Florestal, que tem uma série de práticas já consolidadas de respeito e efetivação de medidas de meio ambiente, certamente tem a maior legitimidade para pleitear uma boa parcela dos 100 bilhões [de dólares]", afirmou Salles ao fim da audiência.

Em agosto, no auge das queimadas na Amazônia, o presidente Jair Bolsonaro recusou a ajuda de US$ 20 milhões (cerca de R$ 83 milhões) oferecida pelo G7 e sugeriu que a Alemanha fizesse bom uso dos recursos que seriam destinados à Amazônia e foram suspensos por conta de aumento do desmate. Segundo ele, o Brasil não precisava da verba.

De acordo com os dados do sistema de monitoramento Prodes anunciados no último dia 18, foram destruídos 9.762 km², um aumento de 29,5% em comparação com o ano anterior. Juntos, os estados de Pará, Rondônia, Mato Grosso e Amazonas foram responsáveis por 84% do total desmatado no período, cerca de 8.213 km².

O país enfrenta também o maior desastre ambiental da história de seu litoral, com o vazamento de óleo nas praias do Nordeste e do Sudeste. O passo a passo do manual elaborado para determinar se o Plano Nacional de Contingência de Incidentes com Óleo (PNC) deve ou não ser acionado mostra que o governo demorou a agir, mesmo com o agravamento diário das manchas.

Salles afirmou ainda que o Brasil está indo bem no cumprimento das metas do Acordo de Paris. O Brasil se comprometeu a reduzir, em 2025, as emissões de gases de efeito estufa em 37% abaixo dos níveis de 2005. Para 2030, há uma contribuição indicativa subsequente de redução das emissões de gases de efeito estufa em 43% abaixo dos níveis de 2005.

"Nós temos a redução significativa de emissões, com relação à redução do desmatamento com base no recorde que nós temos de 28 mil quilômetros quadrados, temos sim uma redução histórica", afirmou. O ministro defendeu que, com o que chama de ambientalismo de resultados, o resultado será melhor.

Ele define o ambientalismo de resultado como a defesa do meio ambiente, mas sem deixar de olhar os resultados. "Não desperdiçar recurso público em coisas que não geram resultado. Não gastar tempo, energia e esforço em coisas que não geram resultado", afirmou durante a audiência.

Salles não quis comentar a prisão de brigadistas em Alter do Chão (PA), em operação que apura a origem dos incêndios que atingiram a região em setembro deste ano. Documentos obtidos pelo blog Ambiência, da Folha de São Paulo, mostram que o inquérito policial reúne grampos sem evidência de crime.

Diferentemente de outros comparecimentos de Salles ao Congresso, marcados por bate-boca com a oposição, desta vez o ministro foi blindado por aliados na comissão de agricultura.

A tropa de choque teve declarações do deputado federal Nelson Barbudo (PSL-MT), que sugeriu que o ator Leonardo DiCaprio, a quem chamou de "companheirão lá que tem milhões e milhões", mandou dinheiro "para os vagabundos incendiar e vender [sic] fotografia para prejudicar a imagem do Brasil" -a referência era aos brigadistas presos em Alter do Chão.

Para Barbudo, "nunca houve no Brasil um ministro que preserve tanto como Vossa Excelência", enquanto a organização não governamental WWF foi chamada de "nojeira" que vem atrapalhar o desenvolvimento, a produção e a geração de emprego e renda do país.

Colega de partido de Barbudo, a deputada federal Bia Kicis (DF) afirmou que Salles fazia parte do "dream team" (time dos sonhos) do governo de Jair Bolsonaro. 


por Danielle Brant | Folhapress